Viajando sozinha

Comigo, viajar sozinha aconteceu meio que no acidente, mas foi, sem sombra de dúvidas, uma das coisas mais iradas que eu fiz. Foi uma combinação de ter ficado quatro anos sem ter tirado férias – e decidido que as coisas não iam continuar assim – com estar solteira pela primeira vez depois de muito tempo.

Nessa de querer viajar e ficar esperando amigas confirmarem se também poderiam ir naquelas datas, eu acabei perdendo duas excelentes promoções de passagens, então, quando eu vi uma oferta super boa para a Itália – possivelmente, meu lugar favorito no mundo -, eu resolvi que eu podia muito bem viajar sozinha, obrigada. Afinal, tratava-se de um país de razoável segurança (observando meus próprios parâmetros), logo, era algo “fazível”.

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(Capri – 2016)

Eu comprei essa passagem em outubro para viajar no final de maio. Eu ainda não tinha viajado (mas já tinha consolidado o racional em mim), quando, em janeiro, vi uma promoção sem precedentes de passagens para Cuba (desde os meus 15 anos eu queria conhecer Cuba, mas as passagens sempre custavam R$4 mil, independente da antecedência da compra, e a promoção estava com passagem por R$2 mil) para viajar em fevereiro. Não tive dúvidas e comprei, portanto, minha primeira viagem sozinha acabou sendo para Cuba ao invés da Itália.

Acho importante estabelecermos que eu sou uma pessoa de perfil introspectivo (o que não significa que eu não gosto de falar, mas simplesmente que eu me alimento de “silêncio” e conversar é algo que dispende energia, enquanto as pessoas ditas extrovertidas se alimentam do contato com outras pessoas). Então, nossa, foi sensacional poder aproveitar grandes momentos de silêncio e andar por aí com o meu livro.

Agora, o que me surpreendeu foi o quanto eu interagi com pessoas e, veja, não era que eu estivesse “me forçando a falar com pessoas por estar sozinha”, porque eu estava muito de boas com essa condição, mas me parece que as outras pessoas ficaram mais abertas para mim e eu, naturalmente, fiquei mais aberta para as pessoas.

Por exemplo, em Havana, eu fiquei na casa de uma família e o “pai” sempre tirava um tempo para tomar café da manhã comigo e me contar sobre eles e o país, o “filho” me levava para passear pela cidade e a “mãe” sempre me chamava para ver tv com eles a noite. Pode ser que eles só sejam assim mesmo, mas a minha impressão é que, como eu estava viajando sozinha, eles se esforçavam extra para tornar a minha viagem agradável e, como eu não estava vivendo num mundo particular com outra pessoa, eu tinha o “tempo” para apreciar tudo que eles queriam me mostrar. Pode ser um comportamento só meu, mas se eu estivesse com outra pessoa, provavelmente, iria preferir ficar no meu quarto a noite ao invés de ver tv com eles.

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(Havana – 2016)

Eu fiz um bate volta para Cayo Largo, enquanto estava em Cuba – e conheci um casal + irmã da esposa e eles me adotaram pelo dia. Foi ai que eu comecei a perder a vergonha de pedir para pessoas tirarem uma foto minha (sou adepta de evitar selfies sempre que possível).

Na costa amalfitana (sim, eu fui para o destino mais romântico do mundo sozinha, por todos os lados eu topava com pessoas em lua-de-mel ou que estavam ali para serem pedidas em casamento), eu conheci uma família de Singapura num passeio de barco e a gente vivia se esbarrando pelas cidades e TO-DAS as vezes eles paravam para conversar comigo, perguntar se estava tudo bem, na real, eu sentia que eles me tratavam como herói de guerra por estar viajando sozinha, até pagarem meu barco de volta de Amalfi para Positano eles pagaram.

Ainda, eu saia para comer sozinha quase todos os dias e, num primeiro momento, os garçons passavam por uma etapa de estranhamento com o “mesa para um”, mas depois, em todos os lugares, eles se tornaram super parceiros, sempre tinha um parado perto da minha mesa puxando assunto, me sugerindo programas na cidade, me contando o que estava acontecendo por ali. Em Positano, inclusive, no restaurante que eu comi a melhor lagosta da minha vida – e foi a primeira, logo, fiquei mal acostumada -, um dos garçons era casado com uma brasileira e falava português, nos tornamos bffs e eu voltei lá algumas vezes.

Ah, algo que também me era muito gratificante era conseguir comer tudo que eu tinha pedido, ainda que todos os garçons duvidassem da minha capacidade. Tenho certeza que músicas sobre mim foram escritas em Positano.

Outro aspecto positivo de viajar sozinha: o que você vai fazer depende exclusivamente de você. Veja, eu e o boy combinamos muito para viagens, mas, mesmo assim, as coisas dependem de um alinhamento entre as partes. Quando você está sozinha, você escuta apenas e simplesmente você mesma. Eu tive dias mega planejados com antecedência, enquanto tive dias mais espontâneos. Em outros eu tinha mil coisas para fazer e em outros dormia até tarde. Ou seja, serve como um excelente exercício de se auto ouvir já que não há qualquer outra expectativa para ser gerenciada, a viagem é aquilo que você faz dela.

Num geral, em ambas as viagens, eu me senti bastante segura. Em Cuba, os rapazes mexem MUITO com as mulheres na rua (mas reparei que lá parece ser uma forma ok de comunicação, porque também vi que quando havia interesse por parte das moças, elas respondiam a altura), mas não era algo que me fizesse sentir insegura.

Acredito que o único ponto negativo (que não chega nem perto de ser algo proibitivo) é que se gasta mais dinheiro. Como em hospedagem e taxis, por exemplo, onde paga-se um comem dois, caso houvesse mais uma pessoa, esse custo poderia ser dividido.

Assim, sozinha eu me perco muito porque eu sou incapaz de me orientar com mapas ou seguir ordens de GPS, não dá. Então, estar sozinha significa que sou totalmente dependente das minhas habilidades (que estão aquém do mínimo necessário), mas acredito que esse seja um ponto negativo bastante particular (e eu nem acho tão ruim assim). Quando eu estava em Havana e eu contava para o “filho” da família os lugares em que eu tinha ido parar tentando chegar em outros lugares, no começo, ele dizia que em breve em pagaria o jeito, como depois do quinto dia eu não demonstrei qualquer avanço, ele achou que seria de bom tom me acompanhar mesmo.

Claro que não foi tudo flores, passei por uns perrengues, como a minha ida para Itália: o voo saiu do Rio atrasado, não foi possível pegar a conexão para Roma (e de lá eu pegaria um voo para passar 4 dias em Paris antes de ir para Nápoles), a Ibéria acabou me mandando de Madrid para Barcelona para lá pegar o voo para Roma – o que me impossibilitou de pegar o último voo para Paris – e ainda perdeu minha única mala no caminho (que não recuperei em momento algum, porque eles acharam por bem mandar de volta para o Brasil). Ou seja, depois de mais de 20h viajando, eu me vi em Roma (onde eu não tinha um lugar para ficar), sozinha, sem falar o idioma, sem ter uma calcinha extra e com vontade de chorar. Certamente, ter um ombro para me apoiar teria sido bem legal, mas também fiquei bem orgulhosa de mim mesma por lidar com a situação por mim mesma (e com as migles que me deram uma mão no caminho).

Além disso tudo, viajar sozinha me deixou com aquela sensação de “po, eu consigo fazer esses paranauês aí ”, o que é bastante empoderador – para usarmos a palavra da moda numa frase – e me diverti demais enquanto fazia isso. Até o momento, Cuba foi a minha viagem favorita da vida.

E vocês? Já viajaram sozinhas? Gostaram? Não viajaram por terem algum receio? Conte aí e vamos trabalhar nisso!

[Havendo interesse, posso detalhar aqui o roteiro das duas viagens]

4 Replies to “Viajando sozinha”

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